01/12/2017

Casos de infecção por HIV aumentam entre jovens

or conta do avanço da medicina, a Aids já não

or conta do avanço da medicina, a Aids já não é mais uma sentença de morte, como na década de 1980. Ainda assim, são cerca de 36,7 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo, sendo 830 mil somente no Brasil, segundo dados de 2016 da UNAids, órgão das Nações Unidas para questões relacionadas à doença.

A estimativa do órgão é que, no ano passado, tenham ocorrido cerca de 1,8 milhão novas infecções no mundo (48 mil no Brasil – 35% delas entre jovens de 15 a 24 anos).

A principal forma de prevenir a Aids é usando preservativo nas relações sexuais, mas o vírus HIV pode ser transmitido por agulhas contaminadas, por contato com fluidos corporais de portadores da doença e de mãe para filho.

Para evitar o contágio, seringas e agulhas não devem ser compartilhadas. Gestantes portadoras de HIV precisam seguir tratamento recomendado durante o pré-natal para evitar a contaminação do bebê. Em caso de suspeita de contaminação, o serviço de saúde deve ser procurado rapidamente para a realização de exames e profilaxia.

No Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado nesta sexta-feira (1), o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor na Faculdade de Medicina do ABC-SP, Juvêncio Furtado, comenta o panorama do tratamento de Aids no Brasil e expressa preocupação com o aumento de casos de infecção entre jovens. Confira a entrevista:

Coração & Vida: Antes uma sentença de morte, hoje uma doença tratável. Como está o tratamento contra a Aids no Brasil?

Juvêncio Furtado: A Aids é uma doença crônica atualmente. Se chama de doença crônica quando as pessoas têm de tomar medicações para o resto da vida. Essas medicações estão disponíveis no Brasil pelo Programa Nacional de DST/Aids. Existem diversos medicamentos que podem ser combinados, tanto para terapias iniciais ou para quem teve falha no tratamento causada por uma infecção por vírus resistentes aos medicamentos habituais.

Para a terapia inicial, é um tratamento que atende a necessidade de todos. Hoje, são cerca de dois comprimidos por dia, em um horário a ser escolhido, e isso tem uma durabilidade muito grande, isto é, pode ser tomado por 10, 20 anos ou mais. Claro, não dá para prever muito bem por conta da evolução da doença e das eventuais resistências do vírus ao medicamento.

No caso de o vírus se tornar resistente aos medicamentos, existe a possibilidade de fazer a troca, e essa troca nunca vai contar com o mesmo número de pílulas. Se a pessoa toma dois comprimidos e o vírus ficou resistente, geralmente o tratamento – que chamamos de resgate – terá um número maior como seis, por exemplo. O remédio hoje é disponibilizado em postos e na rede que trata a Aids. Dificilmente falta medicação e há segurança no uso.

C&V: Há algum ponto a melhorar?

Juvêncio: Existem alguns gargalos no sistema. Apesar de ter um grande número de locais que atendem pelo SUS, o atendimento ainda pode ter atrasos. Se comparamos com outras doenças crônicas, porém, podemos dizer que o atendimento para Aids é muito melhor.

C&V: Há alguns anos houve o aumento de casos de Aids em idosos. Hoje onde está o problema?

Juvêncio: Realmente, há cinco, seis ou oito anos, o número de pessoas com mais de 60 anos infectadas pelo HIV aumentou, e foi por uma questão de que não se imaginava, pois não pensavam na possibilidade de se infectar com o vírus. Com o aumento das possibilidades, como o aumento da venda de medicações para virilidade, isso acabou acontecendo tanto para o homem como para a mulher. Hoje, porém, esses casos estão estáveis. O que preocupa atualmente é a população jovem, de 15 a 24 anos, principalmente homens que fazem sexo com homens.

Se vê muito jovens se infectarem de uma maneira que não se imaginava. Foi uma geração que não viu o boom da Aids dos anos 90, não viu pessoas morrerem de Aids, não viu a gravidade da Aids e deixaram de se preocupar com a prevenção. Esta sim é uma nova epidemia.

C&V: Como mostrar aos jovens que, apesar de tratável, não é legal contrair um vírus que ainda não tem cura?

Juvêncio: Eu diria que a Aids é um assunto que perpassa todos. É discutido na escola, nas redes sociais, nos encontros de pessoas, com os amigos. Sempre está em pauta. A questão maior não é somente a informação, mas a maneira como ela chega. Essa falsa sensação de segurança, pelo fato de ter medicações disponíveis que controlam a doença, leva a uma falsa sensação de proteção.

Eu desconheço quem não conhece a Aids. Não tem desconhecimento, mas sim um despreparo para enfrentar a situação, e aí entramos em uma questão de saúde pública. Não se deve falar da Aids apenas neste momento, como no Dia Mundial de Luta Contra a Aids ou no Carnaval. A informação, tanto por parte de quem deve controlar ou gerir a saúde pública, deve estar sempre disponibilizada. Tem que se preocupar o ano inteiro.

A questão, porém, é como abordar aqueles jovens que conversam em redes sociais e se dispõem a ter relações sexuais sem preservativos. É preciso fazer a informação chegar focada no grupo que está se expondo, e informar que, apesar de ter controle, não tem cura. E que tomar dois comprimidos para Aids por dia não é como tomar vitaminas. Tem efeitos colaterais, além do risco de efeitos pelo uso crônico das medicações.

Houve época em que os idosos foram o alvo. Hoje, a prioridade máxima são os jovens homossexuais. Quem planeja a saúde pública, especialmente as DSTs, tem de se preocupar porque a prevenção já não é a mesma de 20 anos atrás. O princípio é o mesmo, mas as estratégias são outras. Tem que combater o que está acontecendo em determinada faixa etária ou grupo populacional.

Preservativo não falta, está disponível gratuitamente em qualquer posto de saúde. Quando utilizados da maneira adequada, protegem 100%. Por outro lado, tem gente que não quer, que não gosta, que não usa. Estratégias estão sendo traçadas para minimizar esse problema.

C&V: A profilaxia pré-exposição (PrEP) será implantada no SUS a partir de dezembro. É eficaz?

Juvêncio: Antes tínhamos apenas a profilaxia pós exposição (PEP), que é uma estratégia mais antiga. São medicamentos usados durante cerca de 30 dias para quem se expôs ao vírus ou potencialmente teve contato. A pessoa recebe o kit de medicamentos que leva a uma proteção extremamente eficaz. A probabilidade de se infectar usando a PEP nas primeiras horas após o acidente é muito baixa, pois a proteção é muito próxima a 100%. Se demora a iniciar a profilaxia as chances vão diminuindo. Já a profilaxia pré-exposição (PrEP) é uma outra estratégia.

Na PrEP se disponibiliza medicamentos a longo prazo para quem está frequentemente exposto ao vírus e não toma medidas protetoras, como preservativos. Esse grupo de pessoas vulneráveis e que tem potencial risco de adquirir o vírus e transmitir a outras pessoas é elegível aos medicamentos que podem prevenir a infecção sem que a pessoa esteja doente.

Existem várias brechas no tratamento, porém. Se uma pessoa usando a PrEP tiver contato com um vírus resistente ao medicamento, a possibilidade de se infectar é real. Se tiver uma exposição exagerada ao vírus também pode não funcionar, pois se expôs a uma inoculação viral muito grande e não havia medicamento suficiente para fazer a proteção.

C&V: Por questões de saúde pública, nem todos vão ser elegíveis para a PrEP. Para quem ela deve ser indicada?

Juvêncio: Há algumas situações indubitáveis, e uma delas são as populações vulneráveis, como os profissionais do sexo que estão expostos ao vírus. Nem sempre se usa preservativo, e a pessoa vai ter as relações sem preservativo por uma questão financeira. Esses têm indicação precisa.

Também é indicado para alguns casais sorodiscordantes, quando um tem HIV e outro não, independentemente se é uma relação homossexual ou heterossexual. Em uma situação de que o casal quer engravidar, também isso pode ser pensado. O parceiro soronegativo poderia fazer uso da PrEP durante o período de risco do HIV, para poder engravidar.

É preciso considerar também os efeitos colaterais dos medicamentos. A PrEP tem sua toxicidade, que pode levar a alterações nos rins e, menos frequentemente, a uma fragilidade óssea. O uso desse medicamento por períodos prolongados pode causar uma diminuição da calcificação óssea, a osteopenia [precursora da osteoporose], e eventualmente uma fratura patológica. É preciso ter acompanhamento médico.

Como será amplamente distribuída a partir de dezembro, é preciso elencar bem as indicações para saber quem deve, quem pode e quem vai receber gratuitamente as medicações. Não é certo indicar a PrEP para quem simplesmente não quer usar camisinha. Se for feito assim será um grande desastre. Tem que ter uma boa indicação e a consciência de que vai usar um medicamento que, apesar de ser relativamente seguro, tem seus efeitos colaterais. É preciso ter cuidado.

Além disso, a pessoa que usa a PrEP só para não usar camisinha, fica em risco de adquirir outras DST, como sífilis, gonorreia, hepatites, etc.

C&V: Quem pode prescrever?

Juvêncio: O ideal é que tenha prescrição médica, pois a PrEP não pode ser distribuída como se fosse um preservativo. Tem que ser prescrita por alguém que tenha experiência no assunto para ter certeza de que será bem utilizado, além de tirar todas as dúvidas de quem vai usar. O profissional de saúde tem que ter a segurança de que a pessoa vai aderir ao tratamento. Estamos falando de controlar uma transmissão, e existe uma combinação de situações que vão conduzir a uma prevenção completa.

C&V: O que há de promissor no tratamento da Aids? Um dia chegaremos à cura?

Juvêncio: A cura é uma possibilidade – não dá para dizer que isso não vai acontecer – mas existe um caminho a ser trilhado. O tempo que vai levar até essa descoberta eu imagino que ainda seja longo.

Já o que há de promissor no caminho da prevenção e no caminho terapêutico é a combinação de remédios. Se imaginarmos que no final dos anos 90 utilizávamos cerca de 16 comprimidos por dia para o tratamento da Aids, era inevitável que se tivéssemos uma boa adesão. O que se buscou foi uma simplificação dos tratamentos. Sintetizamos tudo em um, dois ou três comprimidos. Essa é uma nova proposta que vem sendo desenvolvida e que realmente traz sucesso.

Outra questão é a durabilidade do tratamento, que é a possibilidade de a pessoa usar o remédio por anos a fio sem ter efeitos colaterais ou perda de eficácia. Existem hoje medicamentos que chamamos de barreira genética muito elevada. Em um medicamento que tem alta barreira genética, o vírus precisa de muitas mutações para se tornar resistente a ele, então eles são melhores que os que têm barreira baixa.

Existem pesquisas, algumas delas quase em fase comercial, que propõem medicamentos injetáveis para tomar uma vez por mês ou uma vez a cada três meses, por exemplo. São medicamentos que tem uma meia vida [tempo de ação] muito alta. Tem um novo campo para caminhar para termos viabilidade.


Fonte: Coração & Vida



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