05/11/2018

Coren-MT homenageia enfermeiras negras

Coren-MT realiza durante este mês a campanha “Nem ladies, nem nurses: mulheres negras na Enfermagem”

A conselheira Lígia Arfeli e o presidente do Coren-MT, Dr. Antônio César Ribeiro

Como forma de homenagear o mês da Consciência Negra, cuja data principal é comemorada no dia 20 de novembro, o Coren-MT realiza durante este mês a campanha “Nem ladies, nem nurses: mulheres negras na Enfermagem”, pela qual vai divulgar informações sobre a exclusão da mulher negra na enfermagem, em seu site e redes sociais, e fará um varal de fotos em forma de banner, que ficará exposto na sede, em Cuiabá, com a biografia de algumas das lideranças femininas negras da enfermagem. Durante o mês, também serão exibidos documentários sobre a temática aos profissionais que comparecerem à sede.

 

“Esta é uma forma de contar o outro lado da história, que é desvalorizado, desconhecido e de resgatar o sentido da profissão, o cuidado, que foi exercido no Brasil primeiro pelos africanos e afrodescendentes, principalmente as mulheres, e depois, no mercado de trabalho, como maioria entre os profissionais em uma categoria extremamente explorada pelo capital”, comentou o presidente do Coren-MT, Antônio César Ribeiro.

Um pouco de história

A profissionalização da enfermagem no Brasil começou nos primeiros anos da República, período em que os intelectuais do país defendiam as teorias racistas difundidas por pensadores europeus, que ficaram conhecidas como “racismo científico” por buscar as bases científicas da suposta inferioridade dos negros e indígenas. Baseavam-se na crença em diferentes raças humanas, que estariam em diferentes graus de desenvolvimento moral e intelectual, estando negros e indígenas em grau inferior ao dos brancos.

Características como a tendência à vadiagem, a libido exagerada, a indolência etc. eram consideradas atributos “naturais” dos negros e indígenas e eles eram tidos como “a parte gangrenada da sociedade”. A mistura de raças era vista como causa de degeneração.

A medicina foi uma das áreas-chave de conhecimento que disseminaram o racismo científico. Um dos exemplos mais famosos é o do psiquiatra italiano Cesare Lombroso, autor da “teoria do criminoso nato”, indicando o indivíduo biologicamente predisposto ao delito.

Nos anos 1920, a Reforma Sanitária, que reorganizou as políticas públicas de saúde no país, foi um dos mecanismos de disseminação desta ideologia. Neste contexto, o sistema de organização da formação de enfermagem, o Sistema Nightingale, importado da Europa e dos Estados Unidos, esteve a serviço do “branqueamento”. Adotado no Brasil pela Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, e posteriormente proposto pelo Decreto 20.109/31, estabelecia estes e outros critérios, com base nos quais as candidatas negras eram barradas nos cursos de formação por serem inadequadas ao padrão.

Ignorou o pioneirismo da população negra na área dos cuidados de enfermagem e marginalizou saberes tradicionais de cuidadores como as amas de leite, as babás, as parteiras, benzedeiras etc.., contribuindo para fixar no imaginário a imagem da enfermeira de pele clara, traços delicados e comportamento afável.

Ausência de registros

Há poucos registros históricos dos modelos assistenciais anteriores a este ou sobre a participação das mulheres negras na formação da enfermagem. Mas elas foram as primeiras “enfermeiras”, desde o período da escravização, atuando como protetoras dos laços familiares, resguardando as manifestações culturais e, ao longo da história, conquistando importantes espaços de visibilidade profissional, que foram ignorados pela história.

Um dos exemplos é da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, período em que ocorreu a Revolução Constitucionalista, quando as “enfermeiras” negras atuaram no batalhão da Legião Negra, ligada à Frente Negra Brasileira, como exemplos da arte do cuidado e, ao mesmo, questionando a imagem da “enfermeira padrão”.

A enfermeira Angelique, uma das homenageadas

A partir dos anos 1940, também na enfermagem cresceu a participação das mulheres no mercado de trabalho e nas universidades e houve expansão das escolas de formação, com a mudança do modelo de assistência à saúde. Ao longo dos anos, a atuação de instituições de referência, como a Escola de Enfermagem de São Paulo, contribuiu para a formação da ideia do “padrão branco” de comportamento e aparência. Tal realidade também teve relação o momento histórico, em que o país buscava se modernizar e urbanizar com base nos modelos europeus e apostava no branqueamento gradual da população.

Racismo se reinventa dia a dia

De lá para cá, o racismo vem se reinventando no dia-a-dia, como se pode observar pela manutenção das desigualdades econômicas e sociais entre negros e brancos. Em Mato Grosso (onde 85% dos profissionais são mulheres e 67% são negros) e em todo o mundo, enfermeiras negras têm enfrentado esta realidade e dado exemplo de coragem e ousadia.   “As mulheres negras foram excluídas não só historicamente, mas no dia-a-dia. Se você vai a um hospital particular, geralmente você não vê uma negra como enfermeira. Em geral é uma mulher bonitinha, loirinha e novinha. Quando a gente entrega um currículo, geralmente é excluído, ou pela idade ou pela cor”, comentou a enfermeira Leonice de Souza Solano, 50 anos.

A enfermeira Leonice de Souza Solano

 

Confira dicas de leitura:

http://populacaonegraesaude.blogspot.com/2014/05/mary-seacole-e-maria-soldado.html

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-68852015000100007

 

Fonte: Ascom Coren-MT




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