12/03/2018

Cuidados com as consequências do álcool no organismo

Para o médico, o álcool é a droga mais “perigosa e sorrateira”, porque ela é socialmente aceita. Parece que a pessoa está no controle ...

Dor de cabeça, náuseas e indisposição são sintomas bem conhecidos de quem consome bebidas alcoólicas. Quase sempre, depois de abusar do álcool, a ressaca está lá incomodando e se faz presente às vezes por mais de um dia. Mas, afinal, como e porque ela acontece? O que o corpo quer dizer com estes sinais?

O site Blog da Saúde entrevistou o médico psiquiatra especialista em Dependência Química, Leonardo Moreira, que fez alertas importantes em relação a esse mal-estar e as consequência do álcool no organismo.

Para o médico, o álcool é a droga mais “perigosa e sorrateira”, porque ela é socialmente aceita. Parece que a pessoa está no controle, porque não sai louca na rua na primeira vez que usa, a exemplo de outras drogas. Mas, ela é a responsável pela maioria dos casos de violência doméstica e acidentes de trânsito. Confira a entrevista!

O que é ressaca?

Leonardo Moreira: A ressaca é uma resposta do organismo que foi maltratado por uma agressão externa, que no caso é o álcool. A gente já identifica essa agressão a partir de níveis pequenos de consumo de álcool. Tem um mito de que não misturar um tipo de bebida com outro não daria ressaca. Ou que cerveja não é uma bebida quente então não dá ressaca. Isso não é verdade! Qualquer tipo de bebida alcoólica pode ocasionar ressaca, independente inclusive, da mistura ou não. O que ocasiona ressaca é uma dose maior do que o organismo é capaz de metabolizar.

E aí que vem algum dos fatores que influenciam na ressaca: a velocidade do consumo, se o organismo não está pronto para absorver ou se a pessoa ingeriu algum outro alimento que possa retardar essa absorção, e se a pessoa não está bem hidratada, entre outros fatores que vão acabar corroborando ou não para o organismo ser agredido.

Algumas pessoas têm predisposição à ressaca?

Leonardo Moreira: Existem pessoas que aguentam mais quantidade de álcool, e justamente por um beber mais frequente ou por um metabolismo mais rápido. Isso é um dos critérios de riscos para se desenvolver uma doença relacionada ao álcool, que a dependência alcoólica.

A gente também sabe é que as mulheres têm uma composição corporal que metaboliza o álcool numa velocidade um pouco menor. E existem algumas diferenças entre, por exemplo, os asiáticos que têm menos enzimas de metabolismo que quebrariam o álcool antes dele ser expelido. E pessoas com uma massa corporal maior, com o metabolismo mais regular, costumam metabolizar uma grama de álcool por hora de consumo. Então é pouco, não dá para beber rápido uma quantidade grande quantidade de álcool.

Muitas pessoas buscam driblar a ressaca e acreditam que conseguem. Criam seu próprio “manual antirressaca”. Isso é possível?

Leonardo Moreira: É um manual com algumas armadilhas. Aquela pessoa que já passava mal no dia seguinte com três latas de bebida, que não era acostumado, agora, para ele ter esse mal-estar, vai ter que beber 10 latas. É um dos fenômenos que organismo já está precisando de doses maiores, inclusive para ter os benefícios do álcool, como relaxamento e prazer. É um caminho para um adoecimento devido ao álcool.

As pessoas, às vezes, também têm algumas maneiras né? ‘Se eu tomar um remédio que é propagado na mídia antes e outro depois’. Na verdade você vai mascarar os sintomas da agressão – a dor de cabeça, a náusea, a desidratação -, mas a agressão existiu. Você tá tratando o machucado, mas tá machucado.

Existe algum efeito da ressaca em longo prazo?

Leonardo Moreira: Com certeza! A gente tem tido a publicação de artigos de que, inclusive, o consumo moderado de álcool tem um risco tanto de câncer quanto de lesão no sistema nervoso central. A gente não sabe qual a vulnerabilidade que eu tenho para desenvolver câncer de laringe, de estômago, de intestino o outro tipo de câncer. Ou uma lesão no cérebro, desenvolver demência por álcool. Ou uma lesão no meu coração e desenvolver uma miocardiopatia alcoólica. Não dá para a gente ter uma segurança de que o álcool pode ser consumido sem risco.

Dai as pessoas pensam ‘fiz um exame de fígado e está tudo bem’. No entanto, para o fígado mostrar que não está bem, ele tem que arrebentar a célula dele para liberar o que a gente vê no exame de sangue. Não existem níveis seguros para o consumo. Quanto mais tempo a gente retarda o uso de álcool, melhor para o indivíduo e para a sociedade. Ou seja, não beber antes dos 18 anos de forma nenhuma e muitos países têm colocado essa idade mais pra cima.

Além dos sintomas físicos mais conhecidos, a ressaca causa outros prejuízos à saúde?

Leonardo Moreira: Há outros sintomas que às vezes a pessoa não identifica como ressaca. Na verdade a ressaca é a síndrome de abstinência do álcool na sua forma leve. Já é um prenúncio de que o organismo está desenvolvendo o adoecimento, tanto que existe o mito de que para curar a ressaca é preciso tomar outra. E que realmente daria certo, justamente porque é um dos critérios de se gerar dependência. O organismo está em falta da substância e se repõe a substância. Lógico que isso vira um ciclo interminável de dependência grave.

Existem outros sintomas que às vezes as pessoas não percebem que são mais de origem psíquica: a pessoa fica mais animada ou mais pessimista ou mais ansiosa. Ela tem crise de ansiedade e não identifica que foi para o uso agudo de álcool.

 Qual o alerta para as pessoas que sofrem com ressaca com frequência?

Leonardo Moreira: Quando a pessoa demora mais para se recuperar, quando antes ela levava menos tempo e hoje demora muito mais, já é um sintoma que o organismo não tolera aquela quantidade de álcool mais. Se a pessoa tem alguns sintomas deve procurar uma Unidade de Atenção Primária para fazer uma investigação da parte gastrointestinal, para falar sobre esse uso de álcool, para pegar uma orientação mais adequada. Existem os CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], em especial os relacionados ao álcool e outras drogas, que têm uma equipe aberta. Você não precisa ser encaminhado, você pode procurar espontaneamente especialistas dessa temática.


Fonte: Blog da Saúde



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