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Na linha de frente, enfermeiras sofrem com discriminação e depressão

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Enfermeira em ambulatório para covid-19 em São Paulo: quase 500 profissionais de enfermagem mortos pela doença no Brasil (Foto: Divulgação/Cofen)

Se 2020 foi um ano difícil para todo mundo por causa da pandemia do Covid-19, para algumas pessoas parece ter sido ainda pior. Certamente enfermeiros e os auxiliares de enfermagem estão entre elas. “Nós somos a única categoria que está com os pacientes nas 24 horas do dia. A gente está com o paciente da hora que ele chega a hora que ele vai embora, cuidando com aquilo que a gente estudou, com aquilo que a gente sabe que vai dar resultado. Nós não temos a opção de fazer isolamento social”, resume Viviane Camargo, integrante do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Sem alternativa, muitos enfermeiros não escaparam do vírus. De acordo com números do Conselho, até 5 de janeiro, 470 profissionais haviam morrido de Covid e outros 45.882 contraíram a doença.

O Cofen coleciona histórias de enfermeiros discriminados no comércio e no transporte público, além dos que se afastaram da família para não transmitirem o vírus. Na página do conselho, há a história de uma enfermeira, em Cuiabá, que teve que lutar para reconquistar a guarda provisória do filho, pois o ex-marido entrou na Justiça e conseguiu que o menino não ficasse mais com a mãe para não correr risco de ser contaminado.

Érika de Oliveira Paulino Rosa, de 26 anos, faz parte da estatística dos contaminados e enfrentou esse cenário com apenas dois anos de profissão – ela ainda é residente no Hospital Sírio e Libanês, em São Paulo. Foi um dos primeiros casos da doença no cômputo geral do país. Segundo a enfermeira, quando ficou doente, nem os médicos ainda sabiam ao certo como cuidar dos pacientes (a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia no dia 11 de março). Sem a real dimensão do que estava acontecendo no mundo, Érica foi isolada pela direção do hospital em um quarto de hotel durante 15 dias. “Entrei em isolamento quando nem mesmo São Paulo havia se isolado; então eu me senti muito sozinha mesmo”.

Assim como milhares de outras vítimas da doença, Érika levou um choque de realidade. “Eu sempre fui uma pessoa muito sociável e extrovertida, que gosta de estar no meio das pessoas; estar em um quarto de hotel sem poder ver o rosto de ninguém, sem poder conversar com ninguém, foi muito difícil (nesse momento, ela faz pausa e chora na gravação do WhatsApp pela qual respondeu as perguntas). Às vezes, eu torcia para que o funcionário do hotel que trazia encomenda para mim ainda estivesse na porta, para que eu pudesse ver alguém fisicamente”, lembra.

Ansiedade e pânico em meio à pandemia

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Érika: taquicardia, pânico e pensamentos suicidas

A tecnologia, arma poderosa para amenizar o isolamento imposto pela covid-19, também ajudou Érika. “Recebi assistência remota de um médico e um enfermeiro, que ficavam me monitorando, mas isso não impediu que eu entrasse em depressão. Não conseguia levantar da cama, por dificuldade de respirar ou porque me dava muita taquicardia. Me impedia até de conversar, eu me sentia muito cansada, não conseguia falar muito tempo ao telefone”, ela conta e, nesse ponto, admite que pensou em se matar e acabar com tudo. “Tinha uma varanda no quarto e eu tive que realmente deixá-la fechada porque não podia enxergar isso (o suicídio) como uma possibilidade”.

Karine Bastos, também enfermeira, tem 38 anos e 10 a mais de enfermagem em relação à Érika, mas com a chegada da covid-19 experimentou a mesma sensação de lutar contra o desconhecido. Ela trabalha em um hospital da rede pública em Fortaleza especializado em traumas e queimaduras, mas de uma hora para outra o local teve que abrir alas para atender pacientes com covid-19. “Tivemos que correr atrás de protocolos”, ela lembra daqueles primeiros dias. De quebra, logo no início, a chefe foi infectada e precisou ser entubada. “Imagina você ter uma chefe que lidera, que orienta e de repente ela fica doente, de uma doença desconhecida”. Outros colegas adoeceram. “Todos nós tínhamos aquele olhar de que a qualquer momento poderia ser um de nós”. E, nesse cenário, Karine também não escapou. Ela ficou doente logo depois de ter ido morar sozinha, pagando aluguel, medida que tomou para proteger os pais. Para não os preocupar, ela não contou que estava doente.

Foram 30 dias de sintomas, com a respiração bastante debilitada, e o lado emocional também. “Sentia muito medo. Houve um momento em que eu tive muita sensação de desmaio e medo de ser entubada. Nesse dia, me vi prostrada no chão pedindo a Deus que me recuperasse. Foi muito marcante, difícil”, conta Karine, que também se emociona ainda hoje. Como paciente, ela sentiu na pele como é importante a confiança de um doente em um profissional de saúde. “Eu deixava claro que se tivesse que ser hospitalizada, eu gostaria de ser cuidada por eles (seus colegas de hospital)”.

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Karine: medo coletivo nos hospitais

Quando voltaram a trabalhar, Karine e Érika depararam com os estragos que a pandemia estava fazendo não apenas na população de um modo geral, mas entre os colegas também. “Eu tive que internar colegas. Foi um momento muito assustador. Tive a verdadeira noção de quantos colegas estavam infectados, tive noção de tanto de medo que todos estavam e percebi o tanto que as pessoas estavam abaladas psicologicamente. Vi colegas chorando quando o resultado dava positivo”, relembra Karine.

Como residente, Érika precisou pagar as horas de plantão em que ficou afastada (a regra é essa, mesmo que o afastamento seja por motivos de saúde). Tudo continuou muito difícil para ela, ou até pior. “Ficar 15 dias fora de um plantão de 12 horas são muitas horas a pagar; precisei voltar e, apesar de não estar ainda bem fisicamente e emocionalmente, acabei retornando ao trabalho no hospital. Foi quando comecei a ter crise de ansiedade, não conseguia dormir e, de manhã, só em pensar em ir pro hospital, eu começava a entrar em desespero. Com muita força, comecei a ir fazer os plantões, mas comecei a sentir pânico. Eu estava em uma unidade crítica, uma unidade isolada, área de covid e comecei a ter crises de pânico”, conta. Sem condição emocional, Érika ficou mais uma semana afastada.

Sobrecarga recorde de trabalho nos hospitais

O adoecimento de muitos enfermeiros e auxiliares agravou velhos problemas enfrentados pela categoria. A sobrecarga de trabalho é apenas um deles. “Com a pandemia, tudo piorou. Como muitos enfermeiros e auxiliares adoeceram com a covid-19, a sobrecarga de trabalho aumentou”, destaca Viviane Camargo. O caso de Érika ilustra essa situação. Quando adoeceu, as três residentes que moravam com ela tiveram que ficar em isolamento, e não foram trabalhar. No Paraná, no 1º dia útil de 2021, o Conselho Regional pediu à população que se previna contra a covid-19, pois é iminente o risco de faltar enfermeiros para fechar as escalas de serviço. No estado, são quase 18 mil casos da doença entre a categoria.

Em boa parte das situações, a sobrecarga não é apenas em um local de trabalho. “Nossos profissionais precisam muitas vezes trabalhar em vários lugares. E por terem que trabalhar em mais de um emprego, estão expostos a uma alta carga viral. Ele sai de um emprego e vai para outro, sem descansar, e isso já mexe com a imunidade”, alerta Viviane Camargo. É nessas condições, que o profissional enfrenta momentos delicados na jornada de trabalho, como o “Paramentar e desparamentar”, que é vestir e tirar a roupa de trabalho. “Porque a roupa muitas vezes está contaminada e isso precisa ser feito de maneira correta. E isso é feito muitas vezes quando o profissional está cansado, estressado, às vezes esgotado, o que aumenta a margem de erro na hora de tirar a roupa e, consequentemente, a chance contaminação”, explica a representante do Cofen.

A exposição da categoria ao risco maior com a covid-19 reforçou a necessidade de aprovar reivindicações antigas dos enfermeiros e auxiliares, como a jornada de 30 horas semanais e o piso salarial nacional. Por isso, no fim de 2020, o Conselho lançou a campanha Abrace a Enfermagem, [4] para que a sociedade valorize a profissão. A campanha mira especialmente o Congresso Nacional, onde há 20 anos os enfermeiros tentam, por exemplo, que vire lei um projeto que estabelece a jornada de 30 horas de trabalho semanais. Além desse, há outros cinco projetos sobre o assunto, um sobre repouso digno (que há quatro anos espera para ser apreciado pelo Senado) e outros 12 que tratam de um piso salarial único em todo o país. Um deles, de 2015, sequer tem relator designado na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, e outros aguardam despacho do presidente da casa.

Atualmente, de acordo com o Cofen, os municípios é que estabelecem quanto os enfermeiros vão ganhar. “O (salário) mais alto é R$ 3,1 mil, na cidade de São Paulo, e o mais baixo, R$ 2 mil em cidades de Pernambuco”, informa Viviane. “A gente gostaria de ter reconhecimento não apenas na forma de aplauso (no início da pandemia, em algumas cidades houve manifestação de aplausos nas janelas para os enfermeiros), mas de salário digno. Porque eles estão dando a sua vida para cuidar da vida de outras pessoas”, enfatiza Viviane. Com o mote da campanha, enfermeiros e auxiliarem esperam pressionar deputados e senadores a transformarem direitos em leis para que a categoria tenha um 2021 um pouco menos difícil. E, se o ano for um pouco melhor para eles, certamente será também para todos nós.