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Técnica de enfermagem mato-grossense é indicada ao Prêmio Anna Nery

Natural de Barra do Garças (511 km de Cuiabá) a técnica de enfermagem Creuza Ferreira Guimarães, de 72 anos, é a indicada de Mato Grosso ao Prêmio Anna Nery, entregue pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aos profissionais que se destacaram pela ética e dedicação a profissão. Moradora de Cuiabá, Creuza possui mais de 40 anos dedicados ao cuidado e à paixão pela enfermagem. Além de carregar um acúmulo de experiência técnica, também guarda histórias que emocionam e fazem de sua trajetória um símbolo de luta.

A escolha pela enfermagem surgiu no início da fase adulta, quando Creuza havia acabado de completar 18 anos. Além do interesse em poder ajudar as pessoas, existia também a necessidade de proporcionar uma vida melhor para sua mãe. “Naquela época o meu pai já tinha morrido e minha mãe era lavadeira, nós éramos cinco irmãos e sempre ajudávamos ela”, contou. 

Mesmo diante das dificuldades, a técnica lembra que a fé era motor para que pudesse ter coragem e seguir firme no propósito de se tornar uma profissional da enfermagem. “Foi difícil. Antes de ir embora para estudar falei para minha mãe ‘eu vou, mas você pode ter certeza que eu volto para tirar a senhora dessa vida’”, compartilhou.

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Creuza chegou a atuar também no setor administrativo do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) | Foto: Coren-MT

Sua primeira tentativa se deu em Goiânia, durante os anos 1970, em uma unidade que oferecia curso de auxiliar de enfermagem. Tendo que se desdobrar para conseguir se manter na cidade, Creuza foi surpreendida com o fechamento do curso por conta de irregularidades técnicas. “A diretora da escola me chamou e me avisou que lá eu não poderia ficar. Na época pensei comigo ‘e agora?’, mas nunca desisti, porque sou uma mulher de muita fé”, afirmou.

Enquanto pensava nos próximos passos, a técnica foi informada por uma amiga que em Anápolis, município a 60 km de Goiânia, também havia uma faculdade que oferecia cursos na área da enfermagem. Sem recursos e decidida a seguir estudando aquilo que gostava, Creuza foi até a cidade para tentar uma vaga na instituição de ensino. 

“Era minha última tentativa e lá eu não conhecia ninguém. Quando consegui falar com a direção da instituição, me deram uma prova para saber se eu poderia ou não estudar lá. Consegui tirar 9.9 na avaliação e fiquei com a vaga. Quando soube que eu poderia ficar senti que fui para outro mundo e voltei, de tanta felicidade”, relembrou com brilho nos olhos. 

“A turma me chamava de ‘Canoinha’”

Quando iniciou os estudos em Anápolis, Creuza logo se deparou com a falta de recursos para comprar todos os materiais que necessitava, um deles era o sapato. Calçando 38, a técnica enfrentou os plantões usando um sapato tamanho 36. “Sofria muito com esse sapato na hora de trabalhar. Quando acendia aquela lâmpada chamando a gente para ir atender, chegava com o pé quase dobrado, porque o sapato era muito pequeno”, disse. 

Contando com a ajuda de uma amiga do curso, a então estudante conseguiu viabilizar a compra de um novo calçado, dessa vez tamanho 40. “Pedi logo um tamanho 40, para andar tranquila no plantão. Aí por conta disso a turma me chamava de ‘Canoinha”, me deram esse apelido por conta do tamanho do sapato”, contou enquanto ria ao lembrar da história. 

Entre percalços e alegrias, a profissional conseguiu finalizar o curso e logo retornou para sua terra natal. Já em território mato-grossense atuou no então Centro Médico de Mato Grosso, em Rondonópolis (215 km de Cuiabá), e posteriormente no Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá. 

“Começava às 6h da manhã e ia até às 19h”

Durante a década de 90, Creuza começou a trabalhar no Centro de Saúde do Osmar Cabral e também no Pronto-Atendimento Infantil do Hospital Universitário Júlio Muller. Sua rotina começava às 6h quando se deslocava até o bairro Osmar Cabral, onde ficava até próximo das 12h. Já na parte da tarde, a técnica se deslocava para o Hospital Universitário, e lá permanecia até às 19h. 

Entre um plantão e outro, a aproximação com os pacientes e o interesse em ajudar se transformavam em histórias que permanecem gravadas em sua memória. Uma delas é a de Lúcia*, uma jovem que conheceu enquanto atendia na unidade universitária. Após uma série de exames, foi descoberto um diagnóstico positivo para hiv, começando então um tratamento que ligaria Creuza e Lúcia durante alguns anos. 

“Teve um dia que ela chegou de manhã cedo chorando, me abraçou e falou: ‘Essa noite eu tava com tanta fome, pedi para minha mãe um leite e descobrimos que os caras tinham roubado o nosso botijão de gás’. Na mesma hora dei 10 reais para ela e liguei para a minha irmã me ajudar a dar um jeito nesse problema”, narrou.

Tocada com a situação de Lúcia, a técnica se reuniu com outros profissionais da unidade que trabalhava e conseguiu organizar uma mesa com diversos alimentos para que ela pudesse se alimentar. “Quando ela chegou lá e viu as coisas, chorou muito. É muito duro. Me lembro dessa cena até hoje, todo mundo chorou. Já vi e vivi muito sofrimento”, desabafou com lágrimas nos olhos. 

Já aposentada e com mais de 40 anos de profissão, Creuza afirma que pensar em enfermagem é pensar em cuidado. “O que você cuida com amor, você tem retorno. Tem que ter paixão pela profissão, ser devotado, a enfermagem é quase um sacerdócio. Precisamos respeitar o outro, a intimidade e o corpo do outro, não interessa se é branco, preto, pobre ou rico, todos nós temos defeitos e no final somos todos iguais”, finalizou. 

O Prêmio 

O prêmio será entregue na noite da próxima quinta-feira (29) durante o 23º Congresso Brasileiro de Enfermagem (CBCENF). O evento será realizado presencialmente em Florianópolis e deve contar com a participação de profissionais de todas as regiões do país. A indicação do nome de Creuza Guimarães partiu do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT), e deve representar os mais de 33 mil profissionais mato-grossenses. 

*Lúcia foi escolhido como nome fictício para preservar a verdadeira identidade da paciente

 

Fonte: Ascom Coren-MT